Informações gerais sobre o curso
A questão do feminino ocupa lugar central na construção do pensamento psicanalítico desde Freud e permanece como um campo de investigação fundamental para a compreensão da subjetividade contemporânea. Ao longo de sua obra, Freud interrogou a constituição da feminilidade, o desejo, o corpo, o amor, a sexualidade e a maternidade, deixando abertas questões que posteriormente seriam retomadas e radicalizadas por Jacques Lacan. Em sua releitura da teoria freudiana, Lacan desloca a discussão da feminilidade para o campo da linguagem, do desejo e do gozo, permitindo pensar o feminino para além de uma identificação determinada exclusivamente pelo corpo anatômico ou pela função materna.
Nesse percurso, a distinção entre mulher, feminino e maternidade torna-se especialmente relevante. A maternidade, embora historicamente associada à feminilidade, não pode ser tomada pela Psicanálise como destino universal da mulher. Do mesmo modo, o desejo de ser mãe não se confunde necessariamente com o desejo feminino, tampouco a experiência da maternidade esgota as possibilidades de constituição subjetiva de uma mulher.
Na contemporaneidade, essas questões assumem novas configurações diante das transformações sociais, culturais e tecnológicas que incidem sobre o corpo, as relações amorosas, a sexualidade, os modelos familiares e as formas de exercer a maternidade. A crescente valorização da autonomia feminina convive, paradoxalmente, com novas formas de cobrança e idealização: o corpo deve ser desejável, a maternidade deve ser realizada de maneira considerada adequada, a vida profissional deve ser bem-sucedida e, simultaneamente, espera-se que a mulher permaneça disponível para o outro. Tais exigências podem produzir conflitos entre os ideais sociais, o desejo e aquilo que, no sujeito, não se deixa capturar pelas identificações e pelos discursos contemporâneos.
Nesse contexto, a Psicanálise oferece instrumentos teóricos importantes para investigar o lugar ocupado pelo desejo, pelo corpo e pelo gozo na experiência feminina. A contribuição lacaniana, especialmente a partir da formulação da sexuação e do conceito de gozo feminino, possibilita interrogar aquilo que escapa às categorias universais e às tentativas de definir o que seria "ser mulher". O feminino pode, assim, ser compreendido como uma questão que ultrapassa classificações identitárias e convoca o sujeito a lidar com a dimensão singular de seu desejo e de seu gozo.
A relevância deste estudo reside, portanto, na possibilidade de articular os fundamentos da Psicanálise freudiana e lacaniana às questões que atravessam as mulheres na atualidade, investigando de que modo desejo, maternidade, subjetividade, amor, corpo e gozo se entrelaçam na constituição da experiência feminina. Pretende-se, ainda, contribuir para uma leitura crítica das formas contemporâneas de subjetivação, evitando tanto a redução do feminino à dimensão biológica quanto sua identificação exclusiva com papéis sociais ou ideais culturais.
Dessa forma, o estudo justifica-se pela pertinência teórica e social de retomar a questão do feminino a partir da Psicanálise, considerando seus impasses históricos e suas novas configurações na contemporaneidade, bem como pela possibilidade de compreender a singularidade do sujeito diante das exigências, discursos e ideais que incidem sobre o corpo, o desejo e a maternidade